Não é não. E pronto.
Existe uma cena que se repete em bares, restaurantes, festas e shows de todo o país.
Uma mulher está se divertindo. Conversa com amigos, dança, pede uma bebida, ri de alguma bobagem qualquer. Então alguém aparece e confunde simpatia com convite, educação com interesse ou simplesmente acha que a vontade dele vale mais do que a dela.
Ela diz não.
Ele insiste.
Ela se afasta.
Ele segue.
Ela ignora.
Ele interpreta o silêncio como negociação.
É impressionante como duas palavras tão pequenas conseguem gerar tanta confusão em algumas cabeças.
E é por isso que Prefeitura de Cotia começou a colocar em prática o Protocolo Não é Não, previsto em lei municipal desde 2024. Nesta semana, a Secretaria da Mulher, Direitos Humanos e Neurodiversidade iniciou o treinamento de equipes de bares e restaurantes para que funcionários saibam identificar situações de assédio e agir antes que elas terminem em violência.
A primeira capacitação foi dada pela própria Secretária Solange Aroeira e aconteceu em um movimentado estabelecimento da Granja Viana. Garçons, atendentes, gestores e equipe de segurança participaram de uma conversa sobre acolhimento, prevenção e procedimentos que podem salvar uma mulher de uma situação constrangedora ou até perigosa.
Porque, convenhamos, ninguém deveria precisar decorar rotas de fuga para tomar um chope numa sexta-feira à noite. E esse tipo de ação de conscientização nem deveria precisar de lei.
Durante o encontro, Solange Aroeira chamou atenção para algo simples, mas poderoso: criar códigos internos para que funcionárias e clientes possam pedir ajuda sem chamar a atenção do agressor. Também orientou que informações sobre o protocolo sejam afixadas inclusive nos banheiros masculinos.
E isso faz todo sentido.
Durante muito tempo, campanhas de combate ao assédio foram direcionadas apenas às mulheres. Como se a responsabilidade pela segurança delas estivesse apenas nelas mesmas.
Ande em grupo.
Não aceite bebida de estranhos.
Avise onde está.
Compartilhe sua localização.
Tome cuidado.
Observe.
Desconfie.
Proteja-se.

Uma lista infinita de recomendações que, no fundo, tentam ensinar mulheres a sobreviver ao problema sem necessariamente enfrentar sua origem.
Talvez tenha chegado a hora de ensinar algumas pessoas que respeito não é gentileza. É obrigação.
O Protocolo Não é Não estabelece que os estabelecimentos tenham equipes treinadas, acolham vítimas sem julgamentos, preservem provas, acionem autoridades quando necessário e ofereçam proteção imediata à mulher que denunciar uma situação de violência ou assédio.
Parece básico.
E deveria ser.
Mas ainda vivemos num país em que muitas mulheres calculam mentalmente a distância até a saída, seguram o copo com uma das mãos o tempo todo e enviam mensagens do tipo “cheguei em casa” não apenas por educação, mas por sobrevivência.
Talvez o aspecto mais importante dessa iniciativa seja justamente este: ela não começa depois da violência. Ela começa antes.
Na prevenção.
Na conscientização.
Na coragem de dizer que determinados comportamentos não são normais, não são brincadeira, não são excesso de bebida e muito menos demonstração de interesse.
São assédio.
E assédio não é paquera.
Não é charme.
Não é insistência romântica.
Não é mal-entendido.
Não é não.
E já passou da hora de a sociedade inteira entender isso.
E por fim, fica a dica:
Qualquer estabelecimento que deseja receber capacitação para sua equipe pode entrar em contato com a Secretaria da Mulher, Direitos Humanos e Neurodiversidade de Cotia, pelo e-mail: secmulher@cotia.sp.gov.br.
Vale ressaltar que em caso de emergência, acionar as forças de Segurança:
- 190 – Polícia Militar
- 180 – Central de Atendimento à Mulher
- 153 – Guarda Civil de Cotia


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