Cotia nas urnas: o que o voto revela sobre a cidade

Resultado do primeiro turno mostra mudanças no comportamento eleitoral de Cotia em relação a 2022, vantagem de candidatos da direita e diferentes escolhas do eleitorado para os cargos em disputa.

As urnas falaram. E, em Cotia, deixaram alguns recados que merecem ser examinados com atenção. O resultado do primeiro turno das eleições de 2026, realizado no domingo (4), revela mudanças nas preferências do eleitorado, confirma a força de determinadas lideranças políticas e mostra que o comportamento de quem vota nem sempre segue uma única direção.

Em Cotia, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 65.331 votos, o equivalente a 46,21% dos votos válidos para presidente. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou em segundo lugar, com 59.084 votos (41,79%). A diferença foi de 6.247 votos.

O resultado chama a atenção quando comparado ao de 2022. Naquela eleição, Lula, que tinha o apoio do então prefeito Rogério Franco, à época no PSD, venceu os dois turnos em Cotia. No primeiro, recebeu 46,04% dos votos válidos, contra 40,61% de Jair Bolsonaro. No segundo, a disputa foi ainda mais apertada: Lula terminou com 50,86%, enquanto Bolsonaro obteve 49,14%.

Quatro anos depois, o candidato do PL passou à frente do petista na cidade. Embora Jair e Flávio Bolsonaro sejam candidatos diferentes {mais o menos uma vez que a essência é a mesma], a comparação indica uma mudança no desempenho eleitoral dos dois campos políticos.

Historicamente, o eleitorado de Cotia tem demonstrado uma tendência à direita, algo que também se reflete na composição da Câmara Municipal. O último vereador identificado com a esquerda eleito na cidade foi Toninho Kalunga, que conquistou mandatos em 2004 e 2008. Outro dado chama a atenção: há mais de 40 anos, nenhuma mulher é eleita para ocupar uma cadeira no Legislativo cotiano.

Esses dois fatos ajudam a compreender o perfil da representação política local: conservadora.

A vitória de Lula em Cotia, em 2022, ocorreu após a pandemia de covid-19, período marcado por intensas disputas políticas em torno da vacinação e da condução da crise sanitária pelo governo de Jair Bolsonaro. O impacto desse contexto sobre o voto merece ser considerado.

Presidente e governador: resultados em Cotia

Cargo Candidato Votos % válidos
Presidente Flávio Bolsonaro 65.331 46,21%
Presidente Lula 59.084 41,79%
Governador Tarcísio de Freitas 73.526 57,21%
Governador Fernando Haddad 53.166 41,37%

Tarcísio teve votação superior à de Flávio Bolsonaro

Na disputa pelo Governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) obteve 73.526 votos em Cotia, correspondentes a 57,21% dos votos válidos. Fernando Haddad (PT) recebeu 53.166 votos (41,37%).

A vantagem do governador foi de 20.360 votos, bem superior à diferença de 6.247 votos registrada entre Flávio Bolsonaro e Lula na disputa presidencial.

O resultado sugere que Tarcísio alcançou um desempenho eleitoral que não pode ser explicado apenas pela força do candidato presidencial do PL. É possível que parte dos eleitores tenha feito escolhas distintas para os dois cargos. Entretanto, os números totais não permitem identificar individualmente essas combinações de votos.

Tarcísio foi reeleito governador de São Paulo ainda no primeiro turno.

Senado: candidatos apoiados por Rogério Franco lideraram em Cotia

Na eleição para o Senado, em que cada eleitor pôde escolher dois candidatos, Guilherme Derrite (PP) recebeu 67.786 votos em Cotia, o equivalente a 28,17% dos votos válidos para o cargo. André do Prado (PL) ficou em segundo lugar, com 63.937 votos (26,57%). Ambos contaram com o apoio do ex-prefeito de Cotia Rogério Franco, atualmente no PL.

Na sequência apareceram Simone Tebet (PSB), com 51.604 votos (21,44%), e Marina Silva (Rede), com 48.683 votos (20,23%). Os quatro candidatos concentraram a maior parte dos votos válidos para o Senado no município.

Candidato Votos % válidos
Guilherme Derrite 67.786 28,17%
André do Prado 63.937 26,57%
Simone Tebet 51.604 21,44%
Marina Silva 48.683 20,23%

Deputados: diferentes correntes políticas dividem os votos

Lucas Pavanato (PL) foi o candidato a deputado federal mais votado em Cotia, com 16.410 votos. Em segundo lugar apareceu Erika Hilton (PSOL), com 9.885 votos, seguida pelo ex-prefeito de Itapevi Igor Soares (PSD), com 7.531.

A presença de Pavanato e Erika Hilton nas duas primeiras posições ilustra a diversidade de escolhas do eleitorado cotiano. Os candidatos representam campos políticos distintos, o primeiro da extrema direita e a segunda da esquerda. E ambos receberam votações expressivas no município.

Ney Santos (Republicanos), que herdou os cabos eleitorais de Emerson Rocha cuja canditura foi retirada depois do mesmo ter sido preso por suspeita de ligações ao PCC,  obteve 6.293 votos, enquanto Eduardo Xaropinho (PDT), candidato apoiado pelo prefeito Welington Formiga, recebeu 5.697 votos.

Na disputa para deputado estadual, Rogério Franco (PL) liderou a votação local, com 14.130 votos. Em segundo lugar ficou Eduarda Campopiano (PL), com 11.606 votos, seguida por Johny Santos (Republicanos), com 6.782, Ely Santos – irmã de Ney Santos (Republicanos), com 6.010, e Eduardo Suplicy (PT), com 4.805.

Deputados federais mais votados em Cotia

Candidato Partido Votos em Cotia Resultado
Lucas Pavanato PL 16.410 Eleito
Erika Hilton PSOL 9.885 Eleita
Igor Soares PSD 7.531 Eleito
Ney Santos Republicanos 6.293 Eleito
Eduardo Xaropinho PDT 5.697 Não eleito

Deputados estaduais mais votados em Cotia

Candidato Partido Votos em Cotia Resultado
Rogério Franco PL 14.130 Eleito
Eduarda Campopiano PL 11.606 Eleita
Johny Santos Republicanos 6.782 Não eleito
Ely Santos Republicanos 6.010 Eleita
Eduardo Suplicy PT 4.805 Eleito
Fonte: apuração municipal e relação de eleitos do TRE-SP. Conferir os resultados individuais na fonte oficial antes da publicação.

Mais de 44 mil eleitores cotianos não compareceram às urnas

Cotia tinha 193.978 eleitores aptos a participar da eleição. Desse total, 149.926 compareceram às urnas, o equivalente a 77,29%. Outros 44.052 eleitores não votaram, uma taxa de abstenção de 22,71%.

Isso significa que aproximadamente um em cada cinco eleitores de Cotia deixou de comparecer à votação. Na eleição para governador, também foram registrados 9.804 votos em branco e 11.596 votos nulos.

É importante distinguir esses números. A abstenção representa quem não compareceu às urnas, enquanto os votos brancos e nulos foram registrados por eleitores que participaram da votação. Sem pesquisas específicas, não é possível afirmar se a ausência decorreu de desinteresse político, dificuldades de deslocamento, questões pessoais ou outros fatores, talvez um pouco de tudo.

Ainda assim, a dimensão da abstenção merece atenção quando se discute a participação dos cidadãos no processo eleitoral.

Comparecimento às urnas

Indicador Total
Eleitores aptos 193.978
Compareceram 149.926
Não compareceram 44.052
Comparecimento 77,29%
Abstenção 22,71%

O que as urnas dizem sobre Cotia?

O primeiro turno de 2026 permite identificar algumas tendências, mas também deixa perguntas em aberto.

A primeira é a mudança na disputa presidencial. Depois de dar vantagem a Lula em 2022, Cotia colocou Flávio Bolsonaro à frente em 2026.

A segunda é o desempenho de Tarcísio de Freitas. Mesmo diante das controvérsias envolvendo concessões, privatizações e a perspectiva de novos pedágios na região, o governador conquistou uma vantagem proporcionalmente maior do que a registrada pelo candidato presidencial do PL.

O resultado provoca uma pergunta: até que ponto as políticas públicas estaduais influenciaram a decisão dos eleitores de Cotia? E quanto dessa votação foi determinado por outros fatores, como identificação política, avaliação do governo ou preferência pessoal pelo candidato?

A terceira tendência está na votação para o Legislativo, em que candidatos de diferentes correntes políticas conquistaram posições de destaque.

Por fim, a abstenção de mais de 44 mil eleitores lembra que os resultados expressam as escolhas daqueles que compareceram às urnas, e não a opinião de toda a população. A ausência também suscita uma reflexão sobre participação democrática. Afinal, quem deixa de votar abre mão de participar diretamente de uma decisão que terá consequências para toda a sociedade.

A eleição presidencial ainda terá um segundo capítulo, marcado para 25 de outubro, quando Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) voltarão a disputar os votos dos brasileiros.

Até lá, os resultados do primeiro turno já oferecem material suficiente para reflexão.

As urnas mostram quem recebeu mais votos. Entender por que os eleitores fizeram essas escolhas, quais mudanças ocorreram e o que elas representam para a política local exige olhar além da contagem dos números.

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