As urnas também falam. E choram.

Eu nunca tinha ouvido falar em Eduarda Campopiano até o último domingo (4), quando começou a divulgação do resultado das urnas.
Confesso que fiquei bastante assustada.

No estado de São Paulo, ela recebeu 1.956.238 votos e foi a deputada estadual mais votada desta eleição.

Ela teve 11.606 votos em Cotia, o equivalente a 9,03% dos votos válidos para deputado estadual, ficando em 2º lugar no município.

Mas quem é a jovem de 23 anos que recebeu uma votação tão expressiva?

Algumas de suas próprias declarações ajudam a responder.

Sobre feminicídio:
“Eu não acho que feminicídio seja algo que exista.”
Campopiano questiona a tipificação específica do feminicídio e, após ser eleita, manteve esse posicionamento.

Sobre os povos indígenas:
“Glória a Deus que colonizaram, glória a Deus que catequizaram as índias.”
Em um podcast, também associou povos indígenas a canibalismo, sacrifícios e ao ato de enterrar crianças vivas. As declarações levaram a artista e liderança indígena Katú Mirim a registrar boletim de ocorrência por racismo. A deputada federal Sônia Guajajara também acionou o Ministério Público Federal contra Campopiano pelas falas.

Sobre aborto:
Campopiano se declara contrária ao aborto em todas as circunstâncias e afirmou após a eleição:
“Eu não quero que o aborto seja proibido, eu quero que o aborto seja impensável.”

Sobre feminismo:
Ela se autointitula “a maior inimiga das feministas de São Paulo” e, depois de eleita, declarou que “a guerra tá só começando”. Também anunciou que pretende se opor a iniciativas como a criminalização da misoginia.

Sobre mulheres trans:
Após a eleição, Campopiano se referiu à deputada federal Erika Hilton, uma mulher trans, como “homem biológico”. A publicação motivou uma representação ao Ministério Público de São Paulo apresentada pela deputada estadual eleita Sofia Favero, que acusa Campopiano de transfobia e violência política de gênero. A representação pede investigação; não há, até o momento, condenação decorrente desse episódio.

São declarações públicas. São posições políticas. E foram submetidas às urnas.

E, a julgar pela votação recebida, não afastaram quase dois milhões de eleitores paulistas. Em Cotia, não afastaram 11.606.

Mais do que perguntar quem é Eduarda Campopiano, talvez seja necessário olhar para o fenômeno revelado pelas urnas: que sociedade estamos construindo quando discursos como esses não impedem uma candidatura de crescer, pelo contrário, contribui para transformá-la em fenômeno eleitoral?

O voto é secreto.

O resultado dele, não.

Eduarda, sinceramente, como feminista que sou e defensora da igualdade de gênero, faço votos para que você não precise provar do próprio veneno durante seu mandato na Assembleia Legislativa.

Você chegará a uma Casa historicamente marcada pela predominância masculina e encontrará pela frente homens, inclusive do seu próprio campo político, em um ambiente no qual nós, mulheres, sabemos muito bem que ainda precisamos disputar espaço, respeito, poder e voz.

Talvez então você descubra uma ironia que a história insiste em ensinar: muitos dos direitos que permitem que uma mulher de 23 anos dispute uma eleição, receba quase dois milhões de votos, ocupe uma tribuna e diga publicamente até que é inimiga do feminismo foram conquistados por mulheres que vieram muito antes de nós.

Muitas delas, FEMINISTAS.

Você disse que “a guerra tá só começando”.

Pois o feminismo começou muito antes de você.

E foi justamente por isso que você pôde chegar até onde chegou. Foi por causa das lutas das FEMINISTAS que hoje você tem a liberdade de ocupar espaços de poder, erguer sua voz e até usá-la para propagar um discurso odioso e repugnante contra tantas das mulheres que abriram o caminho que você agora percorre.

Pronto. Falei.

(Fontes: Tribunal Superior Eleitoral/dados da totalização eleitoral; Folha de S.Paulo; UOL; CNN Brasil.)
Foto: reprodução da rede social da nobre futura deputada

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