Quem elegeu Rogério Franco? A matemática do poder
Rogério Franco (PL) está de volta à política, agora com uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Ex-prefeito de Cotia por dois mandatos e antigo apoiador do presidente Lula (PT), ele foi eleito deputado estadual no último domingo (4), com 89.156 votos.
Mas a pergunta que não quer calar, e que muita gente tem feito nas rodas de conversa, inclusive eu, é: Rogério Franco teria conseguido se eleger sem a votação extraordinária de Eduarda Campopiano, sua colega de partido, que recebeu quase dois milhões de votos?
[Leia aqui sobre os eleitos com votos em Cotia]
A resposta exige mais do que comparar números. É preciso entender como funciona o sistema proporcional brasileiro, responsável pela distribuição das cadeiras nas assembleias legislativas e na Câmara dos Deputados.
E os números revelam uma situação interessante.
Apenas 15,85% dos votos vieram de Cotia
Rogério Franco foi o candidato a deputado estadual mais votado em Cotia, município que administrou durante oito anos. Recebeu 14.130 votos na cidade.
Há quem considere esse número modesto para um ex-prefeito de dois mandatos, especialmente alguém que governou o município por oito anos e desfruta de amplo reconhecimento entre os eleitores locais.
Embora tenha liderado a disputa na cidade, essa votação corresponde a apenas 15,85% dos 89.156 votos que conquistou em todo o estado.
Os outros 75.026 votos, equivalentes a 84,15% de sua votação, vieram de eleitores de outros municípios paulistas.
O resultado mostra que a eleição do ex-prefeito não dependeu exclusivamente de sua base eleitoral em Cotia.
Também levanta uma questão importante: onde Rogério Franco conseguiu construir essa votação e qual foi o peso de suas alianças políticas fora do município?
A votação milionária de Eduarda Campopiano
Aos 23 anos, Eduarda Campopiano tornou-se a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo em 2026, com 1.956.238 votos.
A votação representa aproximadamente 8,4% de todos os votos válidos para deputado estadual no estado.
Para efeito de comparação, Eduarda recebeu quase 22 vezes a votação de Rogério Franco.
Os dois disputaram a eleição pelo PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro e uma das principais forças da direita e da extrema direita brasileira, que conquistou a maior bancada da Alesp, com 27 das 94 cadeiras.
Mas, no sistema proporcional, não são apenas os votos individuais que determinam quem será eleito.
A matemática das urnas
Nas eleições proporcionais, os votos recebidos pelos candidatos e os votos dados diretamente à legenda são somados para determinar quantas cadeiras cada partido ou federação poderá conquistar.
Em São Paulo, a eleição de 2026 registrou 23.290.014 votos válidos para deputado estadual, distribuídos entre 94 vagas.
O quociente eleitoral foi de 247.766 votos.
O PL recebeu 6.286.047 votos, considerando candidatos e legenda. Esse total garantiu inicialmente 25 cadeiras pelo quociente partidário. Outras duas foram conquistadas na distribuição das sobras, elevando a bancada a 27 deputados.
É nesse contexto que entra a votação de Eduarda Campopiano.
Seus quase dois milhões de votos representaram aproximadamente 31,1% de toda a votação do PL.
Ou seja, praticamente um em cada três votos recebidos pelo partido veio de uma única candidata.
Sem Eduarda, Rogério Franco estaria eleito?
Essa é a pergunta central das rodas de conversa por ai, sobretudo entre os que desejam mininizar a nova condição do ex-prefeito.
Retirando os 1.956.238 votos de Eduarda Campopiano da votação total do PL, o partido ficaria com 4.329.809 votos.
Se utilizarmos o quociente eleitoral oficial de 247.766 votos como referência, esse total corresponderia a 17 cadeiras pelo quociente partidário.
Na classificação dos candidatos do PL por votação individual, Rogério Franco aparece na 17ª posição, incluindo Eduarda.
Sem ela, passaria à 16ª posição.
Portanto, nessa simulação simplificada, Rogério Franco continuaria dentro do número de cadeiras que o PL alcançaria.
Isso sugere que sua eleição não dependia necessariamente da votação de Eduarda Campopiano.
A votação recorde da candidata fortaleceu significativamente o PL e contribuiu para ampliar sua bancada. Isso, porém, não significa que seja possível atribuir automaticamente a ela a eleição de um número específico de deputados.
O peso da legenda e a força das alianças
A eleição de Rogério Franco também ilustra a importância da escolha partidária nas disputas proporcionais.
E aqui entra uma questão política que não pode ser ignorada.
Rogério Franco, que antes apoiava Lula e mantinha relações políticas com o PT, disputou a eleição pelo PL, partido identificado com o bolsonarismo.
Que o PL seria uma das principais forças eleitorais desse pleito não era exatamente segredo. Rogério Franco sabia disso. Eu sabia. E, provavelmente, toda a torcida do Timão também.
A escolha ocorreu em um cenário de fortalecimento de movimentos da direita e da extrema direita, no Brasil e em outros países, em meio à expansão de discursos polarizadores que frequentemente recorrem à hostilidade contra adversários políticos e grupos sociais.
O ex-prefeito conquistou uma votação expressiva, mas distante daquela registrada pelos candidatos mais votados do estado.
E também abaixo da expectativa de pelo menos 130 mil votos que circulava entre seus apoiadores.
Ainda assim, conseguiu a cadeira.
Isso demonstra como o resultado de uma candidatura depende de diferentes fatores: a capacidade de conquistar votos próprios, o desempenho dos demais candidatos da legenda, as alianças políticas e as regras eleitorais.
Na política, como no jornalismo, os números podem surpreender. Mas só quando fazemos as contas antes de tirar as conclusões.
O mais importante disso tudo é que Cotia volta a ter um representante com trajetória política diretamente ligada à cidade na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Mas os resultados concretos dessa representação ainda teremos de aguardar. Afinal, dependerão de articulação, alianças, diálogo e, sobretudo, vontade política.
Porque conquistar uma cadeira na Assembleia é uma coisa. Fazer com que ela produza resultados para a população é outra bem diferente.
Quem viver, verá.


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