Quando 8 horas sem luz viram “melhoria”: a lógica da Enel em Cotia

Tem dias em que a realidade parece escrita por um roteirista de comédia ácida. A reunião da Enel com empresários de Cotia foi um desses dias.

Convidados para ouvir soluções, os industriais saíram com uma coleção de números, promessas… e uma revelação quase filosófica: ficar sem energia por até 8 horas agora pode ser considerado um avanço.

Sim, você leu certo.

Segundo a própria concessionária, o tempo médio de atendimento caiu de 888 minutos para 475 minutos. Traduzindo do “corporativês” para o idioma da vida real: de quase 15 horas no escuro para “apenas” 8.

Progresso. Evolução. Uma espécie de milagre estatístico.

A empresa apresentou gráficos, falou em bilhões em investimentos, digitalização da rede, automação, resiliência… palavras bonitas que tentam iluminar um problema que, na prática, continua deixando gente literalmente no escuro.

E não para por aí.

Em um movimento quase poético, a Enel também explicou o fenômeno das chamadas “piscadas” de energia. Aqueles pequenos apagões que fazem seu equipamento desligar, reiniciar e testar sua paciência. Segundo a lógica apresentada, isso é… bom. Porque, veja bem, poderia ser pior e você ficar aqueles “apenas” 475 minutos sem luz.

É como se alguém quebrasse sua janela e dissesse: “agradeça, poderia ter sido a casa inteira”.

Outro ponto curioso do encontro foi a tentativa de dividir a responsabilidade. A mensagem, dita com todas as letras, foi simples: a indústria também precisa se adaptar.

Invista em equipamentos. Modernize sua estrutura. Prepare-se melhor para as falhas. Em outras palavras: se a energia falha, talvez o problema também seja seu.

Enquanto isso, a grande promessa estrutural é a construção de uma nova subestação, prevista para 2028. Até lá, o roteiro segue o mesmo: oscilações, interrupções e a esperança de que tudo volte antes do prejuízo virar rotina.

Mais do que apresentar soluções, a Enel acabou assinando um atestado público de suas limitações. Porque quando 8 horas sem energia são apresentadas como sinal de eficiência, o problema já não é só técnico.

É conceitual.

E talvez o maior apagão não esteja na rede elétrica, mas na forma como se mede — e se comunica — o que deveria ser, no mínimo, básico: luz quando se precisa dela.

[imagem gerada por IA]

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