O desafio do trânsito: como melhorar a mobilidade urbana
Para resolver o problema do trânsito em São Paulo, Cláudio Barbieri da Cunha, professor da Escola Politécnica da USP e engenheiro de transportes, propõe uma combinação de melhorias no transporte público e políticas impopulares, mas segundo ele eficazes.
Em publicação no Jornal da USP, o engenheiro, analisa o trânsito da capital paulista mas isso não é muito diferente quando voltamos nossos olhares para as grandes cidades do entorno da capital, como por exemplo, Cotia onde a discussões sobre o caótico problema de mobilidade está na pauta, com a eminência de obras de supostas melhorias na via e a cobrança de pedágio.
São Paulo, com mais de 9 milhões de veículos registrados, enfrenta um dos trânsitos mais intensos do mundo. Apesar das iniciativas como o rodízio de veículos e investimentos no transporte público, a cidade segue paralisada nos horários de pico.
[Cotia tem uma frora registrada de aproximadamente 120 mil veículos e, ao contrário da capital teve praticamente zero em iniciativas de melhorias ou investimento de transporte coletivo]
Segundo o professor Cláudio Barbieri, o problema vai além do número de veículos. “Eu acho que não precisa ser nenhum especialista para verificar que a nossa infraestrutura está bastante congestionada, principalmente nos horários de pico dos dias úteis. Por outro lado, eu acho que isso não significa que ela não está bem dimensionada, porque o que ocorre no Brasil, em qualquer região urbana, qualquer cidade, é que a infraestrutura nunca é suficiente”, comenta Barbieri.
Ele ressalta que, mesmo com ampliações na infraestrutura, a demanda por viagens tende a crescer proporcionalmente, criando um ciclo contínuo de congestionamento.
Transporte público e individual
A preferência pelo carro em detrimento do transporte público também é um fator crucial para os problemas de mobilidade. Para Barbieri, a comodidade e a eficiência percebida no transporte individual superam as dificuldades enfrentadas pelos usuários do transporte coletivo.
[Por mais de uma vez, essa jornalista que vos escreve já lamentou o fato de que todos os projetos de mobilidade para a cidade de Cotia e outras da região, acabam sempre priorizando os carros e não as pessoas. Não apresentam opções de melhorias no transporte coletivo ou outras alternativas como por exemplo, ciclovias ou ciclofaixas]
“Qual é hoje a grande desvantagem do transporte público em relação ao transporte individual? O transporte individual é porta a porta. Você sai da onde você está indo para o seu destino e é muito confortável. Já o transporte público, de maneira geral, é o contrário. Você precisa, de alguma forma, se deslocar até um ponto onde você embarca. Muitas vezes você precisa transferir de veículo, de linha etc.”, explica. Ele destaca que onde o transporte público consegue ser mais rápido que o carro é preferido pela maioria das pessoas, evidenciando a necessidade de melhorias na eficiência e infraestrutura desse sistema.
Rodízio de veículos: solução temporária
Implementado em 1997, o rodízio de veículos foi originalmente pensado para reduzir a poluição no inverno, mas acabou sendo adotado como medida permanente para controlar o trânsito. No entanto, seu impacto tem se mostrado cada vez mais limitado.
“O rodízio municipal de veículos em São Paulo é uma medida paliativa. Mesmo que, no começo, esse impacto foi menor, hoje esse impacto já não é mais sentido. As pessoas têm placas de carro que podem escolher, as pessoas podem ficar um dia em casa”, aponta Barbieri. Ele menciona exemplos internacionais, como o México, onde o rodízio incentivou a compra de um segundo carro, exacerbando o problema em vez de solucioná-lo.
Para um futuro mais fluido
Para resolver o problema do trânsito em São Paulo, Barbieri propõe uma combinação de melhorias no transporte público e políticas impopulares, mas eficazes, como a cobrança pelo uso do sistema viário.
“Quem quer se deslocar de carro paga mais para se deslocar nas áreas mais centrais, como ocorre, por exemplo, em Londres […] Essa é uma medida muito polêmica, porque ela entra em uma discussão que ultrapassa a questão do transporte, ultrapassa a questão da mobilidade nas áreas urbanas”, diz o professor. Ele destaca que, embora medidas como essas gerem debates sobre desigualdade, alternativas como o rodízio também acabam penalizando os menos favorecidos.
Barbieri conclui que, para resolver o problema da mobilidade urbana, é necessário coragem política para implementar mudanças estruturais e ousadas. Enquanto isso, o trânsito segue sendo um desafio cotidiano para os paulistanos. E para os cotianos também.
[Do Jornal da USP com blog Reconversa]


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