Fiz 18 anos e sou autista: por que a vida adulta ainda é o elo esquecido do espectro?

Os 18 anos são vistos culturalmente como um marco de independência. Contudo, para pessoas autistas, essa passagem nem sempre acontece de forma automática e natural, mas pode marcar o início de uma fase de maior vulnerabilidade para quem é portador do espectro.

“É verdade que os debates sobre autismo avançaram significativamente nos últimos anos. Houve a ampliação dos diagnósticos, a conscientização das famílias e a criação de políticas de inclusão colocaram a infância no centro das discussões”, diz o psicólogo Filipe Colombini, especialista em transtorno do espectro autista, parentalidade e desenvolvimento atípico. “Porém, para milhares de famílias, uma pergunta ainda é difícil de ser respondida, o que acontece quando a pessoa autista completa 18 anos?”, pondera ele.

Colombini reforça que a entrada na vida adulta representa uma das fases mais desafiadoras para o autista justamente porque coincide com uma redução importante dos suportes que existiam durante a infância e adolescência. “Existe uma estrutura muito mais consolidada para crianças. Quando o autista se torna adulto, muitas vezes a expectativa social de independência cresce mais rápido do que as condições reais para que ela aconteça”, afirma.

A falsa ideia de que o desenvolvimento termina aos 18 anos

A maioridade costuma ser associada ao início da autonomia. No entanto, para muitos autistas, o processo de construção da independência continua exigindo suporte, adaptações e acompanhamento.

Segundo Colombini, a vida adulta traz demandas inéditas: administrar dinheiro, lidar com transporte público, estabelecer relacionamentos, ingressar no mercado de trabalho e tomar decisões cotidianas sem a mediação constante da família. “O desenvolvimento não termina quando a pessoa faz 18 anos. As necessidades passam a ser outras e o suporte também precisa mudar”, explica.

Falar bem não significa estar preparado para a vida adulta

Outro desafio é combater alguns estereótipos sobre o autismo.

Muitos adultos autistas possuem boa comunicação verbal, cursam faculdade, trabalham e mantêm uma vida aparentemente independente. Ainda assim, podem enfrentar dificuldades significativas em situações que exigem flexibilidade, leitura de contextos sociais, adaptação a mudanças e gestão emocional. “Existe uma confusão comum entre capacidade de fala e autonomia”, explica o especialista. “Uma pessoa pode se comunicar muito bem e, ao mesmo tempo, enfrentar obstáculos importantes para lidar com situações complexas da vida cotidiana”, afirma.

Trabalho, amizades e relacionamentos: os desafios que ninguém ensina

Enquanto a infância é marcada por desafios ligados à escola e ao desenvolvimento das habilidades sociais básicas, a vida adulta traz situações mais sutis e subjetivas. Questões como manter vínculos afetivos, administrar conflitos profissionais, interpretar códigos sociais implícitos e lidar com imprevistos tornam-se parte da rotina e podem representar obstáculos significativos para muitas pessoas autistas.

Segundo Colombini, essas habilidades não podem ser ensinadas apenas em ambientes controlados. “A vida acontece em cenários imprevisíveis. Muitas vezes, o desafio não está em aprender uma habilidade, mas em conseguir utilizá-la em diferentes contextos”, diz.

O avanço de abordagens que saem do consultório

Especialistas também questionam modelos de intervenção excessivamente centrados no consultório. Embora o ambiente clínico seja importante para o desenvolvimento de habilidades, existe uma dificuldade frequente na chamada generalização: quando a pessoa aprende algo na terapia, mas encontra obstáculos para aplicar esse conhecimento no cotidiano.

“Na prática, isso significa que alguém pode apresentar bons resultados em sessões terapêuticas, que é um ambiente controlado, mas ainda ter dificuldades para utilizar essas habilidades em ambientes reais, como em situações cotidianas, como no trabalho, deslocamentos, relacionamentos e em tomada de decisões”, afirma o psicólogo.

Nos últimos anos, está se mostrando um modelo de intervenção mais eficiente, aqueles que estão mais conectados à vida real, especialmente na fase adulta.

“Nesse contexto, abordagens realizadas em ambientes naturais, quando o psicólogo atua com o paciente fora do consultório, vêm ganhando espaço por possibilitarem que habilidades sejam desenvolvidas diretamente nos cenários onde serão utilizadas”, explica Colombini.

Quando a autonomia deixa de ser teoria

Entre as estratégias que vêm sendo mais discutidas está o Acompanhamento Terapêutico (AT), modalidade que leva o trabalho clínico para além do consultório e busca promover autonomia em situações concretas do cotidiano.

A proposta é que o desenvolvimento aconteça durante experiências reais, como utilizar transporte público, administrar compromissos, lidar com imprevistos, participar de atividades sociais ou enfrentar desafios relacionados ao ambiente profissional. “Não basta treinar uma habilidade em um contexto artificial. É na experiência prática que a pessoa aprende a lidar com as variáveis da vida real e amplia seu repertório de autonomia”, afirma o especialista em transtorno do espectro autista.

Segundo Colombini, o crescimento desse tipo de abordagem reflete uma mudança importante na forma de compreender o autismo: menos foco em ambientes isolados e maior atenção à participação efetiva da pessoa na sociedade.

O impacto silencioso nas famílias

A transição para a vida adulta também costuma gerar insegurança para pais e cuidadores. Após anos acompanhando consultas, terapias e rotinas estruturadas, muitas famílias se deparam com dúvidas sobre qual deve ser seu papel diante da busca por independência dos filhos.

Segundo o psicólogo, é fundamental compreender que autonomia não significa ausência de apoio. “O objetivo não é retirar suporte, mas transformá-lo de acordo com as necessidades da fase adulta”, afirma.

O futuro do debate sobre autismo passa pelos adultos

À medida que cresce o número de diagnósticos e aumenta a conscientização sobre o espectro, especialistas defendem que o debate sobre autismo precisa avançar para além da infância.

A inclusão de adultos autistas envolve acesso ao trabalho, oportunidades de participação social, formação profissional, moradia, mobilidade e construção de projetos de vida. “Estamos começando a discutir uma geração de autistas que chegou à vida adulta. A pergunta agora não é apenas como incluir essas pessoas na infância, mas como garantir que possam construir uma vida adulta com autonomia, pertencimento e qualidade de vida”, conclui Colombini.

Um novo olhar para o espectro

Mais do que ampliar o acesso a tratamentos, especialistas defendem a necessidade de construir caminhos que favoreçam a participação social, a independência possível para cada indivíduo e o desenvolvimento de projetos de vida significativos.

Afinal, completar 18 anos não encerra uma jornada de desenvolvimento. Para muitos autistas, é justamente quando uma nova etapa começa.

 

Mais sobre Filipe Colombini: psicólogo, fundador e CEO da Equipe AT, empresa com foco em Acompanhamento Terapêutico (AT) e atendimento fora do consultório, que atua em São Paulo (SP) desde 2012. Especialista em orientação parental e atendimento de crianças, jovens e adultos. Especialista em Clínica Analítico-Comportamental. Mestre em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Professor do Curso de Acompanhamento Terapêutico do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas – Instituto de Psiquiatria Hospital das Clínicas (GREA-IPq-HCFMUSP). Professor e Coordenador acadêmico do Aprimoramento em AT da Equipe AT. Formação em Psicoterapia Baseada em Evidências, Acompanhamento Terapêutico, Terapia Infantil, Desenvolvimento Atípico e Abuso de Substâncias.

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