A rainha do nada
Quem já leu alguma crônica por aqui, já deve saber que eu não sou muito adepta de automóveis, que não gosto de dirigir, que não tenho muita simpatia com o deslocamento no trânsito e que gosto de transporte coletivo.
Pois bem.
Entrei no coletivo a caminho da consulta com a nutricionista. Era quarta-feira da primeira semana de inverno mas a temperatura era boa e tinha sol. Quase todos os lugares já estavam ocupados.
Como acontece nas mesas dos restaurantes e bares ou mesmo nos jantares de casa com a família ou na sala de estar, a esmagadora maioria das pessoas permanecem com seus olhares atentos aos smartphones, conferindo as redes sociais, jogando, lendo notícias, ou trocando mensagens no whatsApp.
Enquanto se contorcia no banco para outro rapaz se sentar na janela, o moço de barba muito bem aparada perguntava a alguém se o tênis já havia chegado. A senhora de vermelho pedia para alguém preparar o almoço pois ia chegar com fome.. E a moça de salto alto, com a respiração forte, mal sentou e já segurava o celular em uma das mãos e a bombinha de ar na outra; e com isso a bolsa caiu no chão.
Além de observar o movimento ao meu redor – uma característica que adquiri com minha profissão (Jornalista) afinal , tudo pode ser importante na apuração de uma pauta, também aproveitava o tempo para trocar umas mensagens com um coleguinha. Me sentei ao lado da única pessoa que não se importava com o smartphone, na última fileira de bancos do busão – aquela que fica praticamente em cima das rodas e quando o ônibus passa numa lombada temos a sensação de que seremos arremessados e vamos bater na catraca.
Mas voltemos à nossa jovem que não se importava com o celular. E tenho a impressão de que nem percebeu que eu me sentei ao seu lado, tamanha era sua concentração ao seu livro. Sim, ela tinha em suas mãos um LIVRO, minha gente! Uma capa azul linda com o título em letras garrafais: A RAINHA DO NADA.
Confesso que até tentei dar uma espiadela nas páginas para saber um pouco da história ou estória mas sou daquelas que fica enjoada quando lê em movimento. E com os meus mais de 50 anos, a visão com astigmatismo, miopia e hipermetropia (sim, tenho tudo isso nas vistas) não me permite ler coisa alguma sem os óculos que estavam na bolsa.
Restou então viajar no título do livro. Pôxa, nós mulheres já sofremos tanto por conta do machismo, da misoginia e nos contos de fadas somos bruxas, princesas sofridas à espera de um príncipe libertador e quando somos rainha, temos que ser de nada?
O que estaria por trás daquela rainha de coisa alguma? Teria ela perdido o seu reino por ter se entregado a um plebeu? Ou talvez teria se rebelado e abdicado de seu trono? Ou foi expulsa? Meu Deus, por que essa rainha cujo livro tem uma cobra na capa é do nada?
Cheguei ao meu destino. A mocinha do livro desceu no mesmo ponto que eu e seguiu seu caminho. Eu agora tinha duas coisas em mente: o que a balança de bioimpedância da nutricionista iria revelar sobre mim e que diacho fazia essa rainha do nada.
Sobre a balança, deixemos isso para o final do texto.
Mas sobre a Rainha do Nada, descobri na sinopse do livro que a A rainha do nada é o épico desfecho da trilogia O Povo do Ar , da renomada autora Holly Black. Com intrigas palacianas, reviravoltas inesquecíveis e uma construção de universo ao mesmo tempo complexa e crível, que traz como personagem central Jude Duarte, uma garota comum que descobre um universo novo, o dos feéricos (fadas). Ela é obrigada a entrar nesse mundo com 7 anos após o assassinato de seus pais.
“O poder é mais fácil de adquirir do que de manter. Jude aprendeu a lição mais difícil de sua vida quando abdicou do controle do Rei Cardan em troca de um poder imensurável.
Agora, ela carrega o outrora impensável título de Grande Rainha de Elfhame, mas as condições são longe de ser ideais. Exilada por Cardan no mundo mortal, Jude se encontra impotente e frustrada enquanto planeja reivindicar tudo que Cardan tomou dela.
A oportunidade surge com sua irmã gêmea, cuja vida está em perigo. Para salvá-la de uma situação tenebrosa envolvendo Locke, Jude decide voltar ao Reino das Fadas se passando por Taryn. Antes disso, porém, ela precisa confrontar os próprios sentimentos contraditórios pelo rei que a traiu.
No entanto, ao voltar a Elfhame, Jude constata que tudo mudou. A guerra está prestes a eclodir, e ela caminha próximo a seus inimigos. Será que ela vai ser capaz de resgatar a Coroa e o amor incondicional de Cardan, ao mesmo tempo que destrói os planos de seus inimigos? Ou será que tudo está perdido para sempre?”
Não sei como termina a saga de Jude, mas me dei o direito de também viajar na história e transportá-la para o mundo real, das mulheres reais, que vivem por exemplo, em Cotia mesmo, a cidade em que moro, onde todos os dias enfrentamos inimigos reais travestidos de maridos, amigos, colegas de trabalhos que destroem nossos planos e ceifam nossas vidas.
Por aqui, no mundo real, não queremos ser raínha de nada. A guerra da vida real das mulheres é por igualdade de direitos e por respeito.
Ah, e sobre a balança? Coisa chata falar sobre isso.


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