Comando da GCM de Cotia agora tem voz feminina!

Durante décadas, o poder teve voz grossa, passos firmes e um costume silencioso de acreditar que liderança era sinônimo de masculinidade. Nas forças de segurança isso sempre foi ainda mais evidente. Quartéis, batalhões, guardas municipais e polícias foram construídos como territórios masculinos, onde mulheres precisavam provar o tempo todo que eram capazes de ocupar um espaço que nunca lhes foi entregue de verdade.
Em Cotia, essa lógica acaba de sofrer um abalo importante.

Pela primeira vez em 43 anos de história, a Guarda Civil Municipal terá uma mulher no posto mais alto da corporação. Isabel Casaçola Mendes assume o comando da instituição depois de uma trajetória construída dentro da própria Guarda, enfrentando resistências que muitas mulheres conhecem bem: a desconfiança, o preconceito velado, a necessidade permanente de demonstrar competência acima da média apenas para ser tratada como igual.
E talvez a fala mais forte do evento tenha vindo justamente dela, sem efeito teatral, sem frase pronta de coaching corporativo estampada em caneca motivacional. Apenas realidade.

A nomeação foi anunciada pelo prefeito Welington Formiga durante cerimônia com integrantes da corporação e representantes da administração municipal. E um auditório formado majoritariamente por mulheres que muito mais que aplaudirem Isabel por sua conquista, viam nela representatividade.

Fotos: Juliano Barbosa

Eu também estava lá e não fiz questão nenhuma de esconder minha satisfação de estar lá. De ser parte do primeiro escalão do governo que  tem demonstrado esforço na equidade de gênero em sua gestão, como nenhum outro governo fez na minha cidade.

Atualmente subcomandante da Guarda, Isabel passa agora a liderar a instituição vinculada à Secretaria de Segurança Pública.

Bacharel em Direito e pós-graduada em Gestão de Segurança Pública, Isabel possui cursos operacionais em Gerenciamento de Crise, Primeiro Interventor em Ocorrências com Reféns, Controle de Distúrbios Civis e capacitação para manuseio de armas longas, incluindo o fuzil T4 calibre 5.56. Ao longo da carreira, acumulou experiência em diferentes áreas da segurança pública municipal.

Durante o anúncio, o prefeito destacou a importância da valorização da corporação e afirmou confiar na capacidade de liderança da nova comandante.

“Cada guarda municipal tem a sua história, a sua luta e precisa ser cuidado com respeito. Mas para liderar a Guarda também é preciso firmeza e entender que a instituição está acima dos interesses pessoais”, afirmou Formiga.
Em tom emocionado, o prefeito também ressaltou o simbolismo da escolha de Isabel para o comando da corporação. “Está aqui a primeira comandante da Guarda Municipal de uma cidade da região Oeste da Grande São Paulo. A tranquilidade, a clareza e a empatia da mulher vão ajudar a continuar fazendo com que a Guarda Municipal de Cotia siga sendo referência”, declarou.

“No ano de 1997 começou o primeiro quadro de guardas femininas em Cotia e tivemos muita resistência. Existia uma cultura estrutural de que mulher tinha um único papel. Mas ao longo dos anos mostramos que poderíamos fazer a diferença dentro da instituição”, discursou Isabel.

E aqui Isabel não está falando apenas da Guarda. Está falando do Brasil.

Porque mulheres sempre trabalharam. Sempre lideraram. Sempre sustentaram famílias inteiras emocional e financeiramente. Mas ocupar espaços de autoridade continua sendo tratado quase como concessão histórica feita pelos homens. Como se cada mulher em cargo de comando ainda precisasse agradecer pela “oportunidade”.
E não. Não é favor. Nunca foi.

Existe algo profundamente simbólico em homens que passaram anos sendo treinados para obedecer lideranças masculinas agora serem comandados por uma mulher. Isso mexe com estruturas invisíveis. Obriga a revisão de comportamentos, desafia egos e desmonta aquela velha ideia de que firmeza, estratégia e autoridade pertencem ao universo masculino.

Pertencem a quem tem preparo. A quem tem coragem. A quem sustenta responsabilidade.
Isabel não chegou ali por acaso. Ela construiu carreira, formação técnica, experiência operacional e trajetória institucional. Mas também chegou ali porque outras mulheres insistiram antes dela. Mulheres que entraram em ambientes hostis, suportaram piadas, silenciamentos e olhares atravessados para que, anos depois, outra pudesse finalmente ocupar o comando.

E isso importa.

Importa para as meninas que ainda crescem ouvindo que existem profissões “de homem”. Importa para as mulheres que trabalham dobrado para serem reconhecidas pela metade. Importa para uma cidade inteira perceber que liderança também pode ter escuta, empatia e firmeza sem reproduzir autoritarismos antigos.

A segurança pública talvez precise justamente disso: menos testosterona performática e mais inteligência emocional. Menos culto ao poder e mais compromisso com proteção real das pessoas.

Quando uma mulher assume o comando, não é apenas uma troca de patente.

É a história mudando de direção. Ainda devagar. Ainda enfrentando resistência. Mas mudando.

E honestamente? Já estava passando da hora.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *