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O filho da doméstica e as coisas que o dinheiro não paga

Alameda Rio Negro, Alphaville, bairro nobre de Barueri. Os carros que circulam pela alameda quase sempre custam no mínimo 150 mil reais.

Eu no ponto de ônibus com a Bia. Ao nosso lado duas mulheres tagarelavam o tempo todo, falavam de pandemia, do trânsito, do ônibus que não passava nunca, do calor que tinha voltado, da rotina na casa das patroas, dos filhos…

Eu e Bia depois de termos gastado uma pequena fortuna numa padaria para quebrar o desjejum pós consulta na nutricionista, além de ouvir a conversa alheia – até porque era impossível não ouvir, também tagarelávamos enquanto observávamos os acontecimentos ao nosso redor: os carrões que quase nunca paravam na faixa para os pedestres, motoristas que se irritavam com tudo e todos, play boys passando em alta velocidade, “gente fina elegante e sincera” de óculos escuros e roupa de grife passeando com seus shih tzus, Labradores entre outros cãezinhos lindos com lacinhos,  perfumados e pedigree.

Com um gesto Bia me alerta para prestar (mais) atenção na conversa das mulheres em que uma delas contava, imagino eu que com muito orgulho, o caminho percorrido por seu filho e os sacrifícios feito pela família, para ele entrar na faculdade de Medicina.

Como bem sabemos o Curso de Medicina em uma faculdade pública é o mais concorrido do Brasil. Não é para qualquer um, sobretudo um jovem filho de doméstica aluno da rede pública. Para realizar o seu sonho o jovem frequentou um cursinho, com as notas do Enem conseguiu passar em Odontologia, Administração e mais algum outro curso que não foi audível, mas queria mesmo era Medicina. “Aí ele chegou pra mim e falou que deixasse ele fazer mais um ano de cursinho e no próximo ano ele iria entrar. E demos um jeito”, contou ela.

O garoto então, fez o cursinho e novamente o Enem e tirou 990 na redação!! U lá, lá!

Pronto, entrou no curso de seu sonho! Mas a batalha estava apenas começando. O primeiro livro que precisou comprar na faculdade custara R$ 2 mil e o pai parcelou em 10 vezes. Outros livros ainda viriam e talvez muitas e muitas prestações…“E pensar que a filha da minha patroa também faz Medicina e paga R$ 10 mil de mensalidade”.

O ônibus delas chegou. E a história terminou aqui.

Mas fiquei pensando em quanto deve ter sido importante para essa humilde senhora ter o filho cursando o mesmo curso que a filha da patroa. Fiquei pensando no orgulho dessa mãe que enchia a boca para contar a história de determinação de seu filho e de toda família. Fiquei pensando em quantos jovens e quantas famílias não conseguem realizar seus sonhos porque vivemos em um país desigual e injusto.

Chegou o nosso ônibus. Entramos, passamos a catraca, R$5,45 cada passagem. Sentamos. E seguimos nossa prosa que se misturou com tantas outras que de vez em quando era interrompida pelos personagens do lado de fora: o Chaves que panfletava para um loja, o Supermam anunciando a promoção de Natal e centenas de milhares de anônimos que seguiam suas rotinas na movimentada avenida Inocêncio Seráfico a mais importante de Carapicuíba. E nossa viagem terminou na Raposo Tavares, a rodovia que já foi do amor.

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