Cloroquina já faz parte de protocolo para Covid-19 em Cotia

Apesar da não comprovação de eficácia e de divergências entres especialistas e OMS, medicação foi incluída no protocolo do Ministério da Saúde. Em Cotia, droga já é utilizada

 

Incluída pelo Ministério da Saúde como opção de tratamento para pessoas com Covid-19, a cloroquina e seu derivado hidroxicloroquina faz parte do protocolo de atendimento da Secretaria de Saúde de Cotia.

De acordo com o documento divulgado pelo Ministério, que segundo publicou o Bom Dia Brasil, não foi assinado por ninguém, cabe ao médico a decisão sobre prescrever ou não a substância, sendo necessária também a vontade declarada do paciente, com a assinatura do Termo de Ciência e Consentimento.

O governo, no entanto, fez um alerta de que, apesar de serem medicações utilizadas em diversos protocolos e de terem atividade in vitro demonstrada contra o coronavírus, ainda não há resultados de “ensaios clínicos multicêntricos, controlados, cegos e randomizados que comprovem o beneficio inequívoco dessas medicações para o tratamento da covid-19”.

“O nosso protocolo contempla o uso da Cloroquina na fase de replicação viral. A doença tem três fases, sendo que a segunda fase tem dois estágios (estágio 2A e 2B) e, na fase três de replicação viral (que é quando o vírus se reproduz dentro do organismo) a Cloroquina está sendo utilizada”, respondeu o médico Magno Sauter, chefe da Pasta em Cotia.

Segundo o parecer do Conselho Federal de Medicina (CFM) os médicos têm liberdade para receitar os medicamentos em situações de sintomas leves, em acordo com pacientes, alertando para o fato de que não existem trabalhos que comprovem o benefício da droga para o tratamento da covid-19.

O parecer Parecer nº 4, de 23 de abril traz ainda algumas ponderações.  “A administração de um medicamento que não tem efeito comprovado como alternativa para o tratamento de pacientes com maior gravidade assume, muitas vezes de forma equivocada, que o benefício será maior que o prejuízo. Entretanto, frequentemente, não é possível saber se um medicamento não testado para determinada doença terá maior benefício ou maior prejuízo se não houver um grupo controle”, diz o texto.

Divergências

A nova diretriz traz como recomendação a aplicação da droga também para casos leves, dependendo de decisão médica. Até então, a orientação do Ministério da Saúde era de emprego do medicamento em casos de média e alta gravidades.

O tema vinha sendo objeto de debates no governo, entre autoridades de saúde e entre pesquisadores. O presidente Jair Bolsonaro já havia se pronunciado diversas vezes a favor do uso do medicamento. Os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich divergiam do presidente na questão do uso da cloroquina nos casos de covid-19.

Nas diversas pesquisas realizadas até agora, não há consenso sobre evidências científicas da eficácia da prescrição da substância. Duas delas, uma da Fundação de Medicina Tropical no Amazonas e outra da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, colocaram essas dúvidas.

Em entrevista coletiva na quarta-feira (20) no Palácio do Planalto, representantes do governo defenderam a iniciativa, argumentando que esta não obriga, e sim orienta o médico, que possibilita a oferta do medicamento aos que se tratam pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e que é uma providência necessária diante das mortes causadas pela covid-19.

A Sociedade Brasileira de Infectologia e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira divulgaram um documento de recomendações para o tratamento farmacológico da covid-19, que analisa diversas drogas cogitadas para lidar com a doença.

A cloroquina e a hidroxicloroquina são enquadradas como de risco importante, e a recomendação é contra o uso de rotina. As evidências da eficácia são consideradas baixas. Classificação semelhante ocorre no caso em que essas drogas são ministradas de forma conjunta com azitromicina. A orientação de evitar usos de rotina também é feita em relação a drogas como tocilizumabe, glicocorticosteroides e lopinavir.

Para a coordenadora da Comissão Intersetorial de Ciência, Tecnologia e Assistência Farmacêutica (Cictaf) do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Débora Melecchi, o protocolo desrespeita a ciência porque inexistem estudos que indiquem eficácia do uso de cloroquina para sintomas leves, inclusive neste momento. O que há até agora são artigos e estudos que concluíram que a utilização não está tendo efeito positivo e há efeitos colaterais, como problemas cardíacos, acrescenta Débora.

Na opinião de Débora, caso os estudos verifiquem um efeito positivo, o remédio pode ser usado, mas antes disso é temerário. “Os riscos à vida das pessoas estão grandes. Além disso, o protocolo traz termos de consentimento deixando na mão do familiar a decisão sobre vida e morte do paciente. Sabe-se lá quantos brasileiros poderão vir a morrer pelo uso do medicamento”, diz.

Já o Conselho dos Secretários Estaduais de Saúde (Conass) disse em nota que o documento não teve “participação técnica e pactuação tripartite” e que “ao contrário do que foi divulgado em entrevista coletiva, deixa claro que tais orientações são de única responsabilidade do Ministério da Saúde”. O Conselho reafirmou sua posição de se pautar “pelos respeitos às melhores evidências científicas”.

“O Conass insiste na importância de se prosseguir com a discussão junto ao gestor federal do SUS sobre temas que se relacionam diretamente à estratégia de enfrentamento à pandemia de modo tripartite. Por que estamos debatendo a Cloroquina e não a logística de distanciamento social? Por que estamos debatendo a Cloroquina ao invés de pensar um plano integrado de ampliação da capacidade de resposta do Ministério da Saúde para ajudar os estados em emergência?”, questionou a entidade.

O que diz a OMS

Sobre a decisão brasileira, o diretor executivo da Organização Mundial de Saúde, Michael Ryan, disse todos os países estão na posição de aconselhar os cidadãos sobre o uso de remédios em seu território. “Contudo, neste estágio, nem a hidroxicloroquina, nem a cloroquina tiveram sua eficácia comprovada em relação à covid-19. Foram emitidos alertas por várias autoridades sobre os efeitos colaterais da droga e muitos países limitaram seu uso para estudos clínicos ou na supervisão em hospitais”, afirmou.

Covid-19 em Cotia

De acordo com último balanço divulgado pela Secretaria de Saúde de Cotia, a cidade contabiliza, oficialmente 488 pessoas infectadas pelo novo coronavírus e 116 pessoas internadas. Ainda de acordo com o boletim, atualizado na tarde de quarta-feira, 44 pessoas morreram por complicações da doenca e outros 17 óbitos aguardam confirmação.

Para tentar conter o avanço do virus, a Prefeitura de Cotia seguiu orientação do Governo do Estado e decretou feriado prolongado desde quarta-feira (19), mas segundo relatos, pouca coisa mudo na cidade, as ruas seguem com grande movimento de pessoas. De acordo com monitoramento do governo de São Paulo, nesta quinta-feira a cidade  apresenta 46% de isolamento. O índice recomendado é de no mínimo 70%.

(Com informações da Agência Brasil)

 

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