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Em menos de um ano suicídio dobrou em Cotia

Por mês, Centro de Atenção Psicossocial (CAPs) de Cotia atende uma média de 1,5 mil pessoas com depressão, principal fator que leva ao suicídio

De acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde de Cotia, obtidos com exclusividade por este blog, em 2018, pelo menos 42 pessoas cometeram suicídio em Cotia. De janeiro até 5 de setembro, data desta entrevista, o numero de pessoas que finalizaram suas vidas já era 80, ou seja, o dobro do ano anterior.

Olhando assim, de forma isolada pode parecer pouco mas o psiquiatra doutor Paulo Moraes, da Secretaria de Saúde considera o número “altíssimo para uma cidade com a população de Cotia”.  Mas este número pode aumentar, uma vez que muitos casos de suicídio acabam não sendo quantificado e são tratados como acidente.

“O suicídio é o estágio mais trágico, mais temido da depressão, quando a pessoa abandona a vontade de viver e busca a morte. Essa dramaticidade que o suicídio traz nos assusta”, comentou o psiquiatra, que tem 44 anos de atuação em psiquiatria, com passagens pelo Hospital Albert Einstein, FMUSP além de coordenar saúde mental em Araçariguama e em outras cidades da região e ter criado e dirigido o Núcleo de Apoio à Família em São Roque entre outras atividades nesse campo.

Há dois meses ele atua no CAPs – Centro de Apoio Psicossocial  Álcool e Drogas, em Cotia, onde atende por mês de mil a 1,5 mil pessoas com depressão, doença que já vem sendo considerada o “mal do século”. E de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), atinge 5,8% da população brasileira, índice que está acima da média global que é de 4,4%.

Doutor Paulo Moraes é médico Psiquiatra e atua na Secretaria de Saúde de Cotia

O que é depressão?

O psiquiatra, que atua na corrente da terapia psicodinâmica, defende que a depressão às vezes é necessária.  E exemplifica: “diante de uma perda, temos que sentir a depressão, ela é uma emoção que precisamos usar em alguns momentos, até porque reconhecer determinadas situações em nossa vida significa crescer”.

A doença depressiva é uma alteração do humor que segundo o médico não é mesmo estável, tem alterações, “mas isso é vida”.

Com o boom das redes sociais em que as pessoas se expõem o tempo todo, vivemos numa época em que nos parece que somos obrigados a estar eufórico, alegre o tempo todo. “E quando eu vejo que estou eufórico mas não tem conexão com a minha realidade, eu me deprimo. Ter que estar bem o tempo todo, sem estar bem é uma das razões da depressão.”

O Brasil vive uma “epidemia de depressão”. Para o médico devido as condições de vida das pessoas, “estamos vivendo uma condição no país que propicia isso, de pessoas insatisfeitas, desalentadas, sem esperança, não estamos felizes. E aí o sentimento de desamparo aumenta e a depressão também”.

O perfil do suicida

A depressão não escolhe classe social. Mas está principalmente entre os jovens na faixa etária dos 19 aos 25 anos de idade. As mulheres são as que engordam as estatísticas dos suicídios no Brasil.

Sentimentos de exclusão e abandono são os principais motivos que levam uma pessoa a tirar a própria vida, muitas vezes aumentado pelo uso de drogas.

O principal método utilizado para finalizar a vida é a ingestão de medicamentos. Mas há uma quantidade enorme de pessoas que ingerem chumbinhos e outros venenos, muitas vezes encontrados com facilidade nos comércios. Isso sem se falar nos próprios medicamentes, muitas vezes prescritos pelo próprio médico. E para esse fato, doutor Paulo Moraes faz uma certa “mea culpa” e convida os colegas a refletirem sobre isso.

Depressão tem cura

Alteração de comportamento como por exemplo abandonar cuidados com o corpo, deixar de ser sociável, não ter vontade de estudar, trabalhar, passear, deixar fazer coisas que sempre gostou é um sinal de alerta.

Tanto podemos observar isso nas pessoas com as quais convivemos como em nós mesmos, diz o médico. E mesmo os mais introvertidos apresentam mudanças no comportamento. E para esses sinais, a melhor opção é buscar ajuda médica.

Depressão tem cura, garante o psiquiatra. E a terapia é o caminho para isso. Ela é o processo de autoconhecimento. Vai ajudar o paciente a descobrir caminhos, novas possibilidades na vida.  “Eu me curo da depressão quando volto a ter razões para continuar vivo, quando volto a criar alternativas, a criar esperança, quando volto a viver”.

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