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Sobre preconceito, sobre colocar-se no lugar do outro e sobre ser mãe

Depois de sair de uma reunião em que resolvi uma coisa que me deixou chateada e pensando como me deixei chegar naquela situação,  fui andando pelas ruas do centro de Cotia, embaixo daquele solzinho de inverno.

Peguei o buzão Barbacena, para chegar até a Granja Viana. Estou sem carro já alguns meses. Não fosse a precariedade do transporte coletivo de Cotia, isso nem me incomodaria tanto uma vez que, uma das poucas coisas que eu odeio nessa vida (além de preconceito, racismo e machismo) é dirigir.

Me sentei no único banco que restava. Logo o ônibus estava com várias pessoas em pé. Uma senhorinha simpática aparentando seus sessenta e poucos anos subiu ali em frente ao Mercado Municipal.  Me levantei e dei o banco a ela, que agradeceu com um sorriso.

Em menos de dois minutos, várias pessoas deixaram o ônibus e eu voltei a sentar e para minha surpresa a senhora simpática veio sentar-se ao meu lado. E já puxou conversa.

Vou chama-la de Maria porque não tenho permissão para revelar seu nome e gostaria de compartilhar com vocês a nossa conversa que foi bem valiosa para mim.

Ela começou falando sobre as dificuldades que as pessoas idosas têm para utilizarem transporte público.  “Muita gente duvida que eu sou da terceira idade, mas eu tenho mais de 60”. Que ela não leia isso, mas ela aparenta sim ter mais de 60 rsrsr mas isso não importa, a boa educação sempre nos manda que os mais velhos, independente de idade tem a preferência. Com problemas no joelho, algumas vezes usa bengala e ainda assim tem seu direito desrespeitado no transporte.  Lastimável.

A dona Maria é mãe do José (outro nome fictício), autista. Ela me contou que logo que o menino nasceu teve muita dificuldade para diagnosticá-lo.  Desconfiada que o garoto tinha algo diferente, ela disse que teve que insistir com os médicos. Por conta própria começou a pesquisar, ler muito conversar com outras pessoas e dizer aos médicos que seu filho era sim autista até que finalmente veio o diagnóstico oficial. Sim, José era autista.

Mas sua luta estaria apenas começando. Primeiro desafio foi vencer o preconceito dentro de sua própria casa. Seu marido, pai biológico de José não aceitou o filho. E aí a voracidade, a coragem e o amor incondicional que só uma mãe tem falou mais alto. Era o marido ou o filho e não preciso dizer quem ela escolheu. Com o fim do casamento ela também largou para traz uma vida financeira estabilizada e começou tudo de novo, do zero.

O tempo passou e hoje José tem 35 anos. Ela já se estabilizou financeiramente, tem uma pequena empresa, não perguntei e ela também não me disse se partiu para um novo relacionamento. Mas penso que ela merecia isso.

Mas uma coisa ela e seu filho José ainda não venceram, o preconceito.  “As pessoas são muito intolerantes”, disse ela baixando o tom de voz. “Certa vez José pisou no pé de uma pessoa no ônibus e foi aquele tumulto, foi xingado e humilhado”. Todo dia tem uma história de preconceito em relação a eles no transporte.  Mas Maria não se irrita, reclama da falta e política públicas eficientes para as pessoas que precisam de mais acessibilidade e tem necessidades diferenciadas.

Maria defende que o autista tenha algum tipo de identificação, que avise as pessoas ao redor que é diferente. Eu pergunto se isso não estaria sendo de alguma forma preconceito ao rapaz. E aí Maria se coloca no lugar do outro: “não está escrito na cara de José que ele é autista, as pessoas não são obrigadas a saber”, comentou.

Mas a conversa chegou ao fim. Chegamos ao km 25 da Raposo Tavares, ela iria descer no mesmo ponto que eu em busca de um endereço, expliquei pra ela onde era rua que buscava, trocamos cartões e ficamos de conversar mais sobre o tema.

Pensei um pouco na nossa conversa, no quanto as pessoas são intransigentes, desrespeitosas, intolerantes e desinformadas. Mas meus pensamentos foram interrompidos pelo meu estômago faminto e resolvi apertar o passo e chegar em casa para resolver esse outro problema.

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