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E vamos todos dar viva ao Golpe de 64?

Quando eu nasci em outubro de 1971, o Brasil estava em plena Ditadura Militar. O presidente era o General Emílio Garrastazu Médici, o terceiro presidente dos anos de chumbo que assumiu em 1969 e ficaria até 1974, quando deixou sua cadeira para outro general, o Ernesto Beckmann Geisel. João Figueiredo, em 1985 seria o último militar a governar o Brasil, ou melhor, o penúltimo.

Se eu já fosse jornalista naquela época, eu não poderia escrever esse texto ou seria severamente punida, talvez torturada e morta, destino que teve, por exemplo, naquele mesmo ano e mês em que eu nasci, o jornalista Wladimir Herzog.

No final daquele ano, de acordo com o portal Memórias da Ditadura, o Brasil somava 788 denúncias de pessoas torturadas e 30 mortos. E a onda de desaparecidos aumentava.

Neste mesmo ano, o ativista do MR-8, Stuart Angel foi assassinado. Assim como Carlos Lamarca e sua esposa Iara Iavelberg,  o deputado Rubens Paiva e tantos outros que lutavam contra o regime ou mesmo que expressasse uma opinião contrária a dos militares.

Neste período, operava no Rio de Janeiro a famosa “Casa da Morte” administrada pelo Exército, para onde eram levados presos que eram torturados, mortos e depois tidos como “desaparecidos”, muitos não foram encontrados até hoje. Em São Paulo, o DOI -CODI Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, utilizava um sitio com as mesmas finalidades, além da própria sede do órgão.

Por que estou escrevendo tudo isso? Para lembrar que esses e outros atos de tortura e assassinatos ocorreram quando os Militares tomaram o pode no Brasil em 31 de março de 1964, o ato culminou com a derrubada do então presidente João Goulart  e a instalação de um regime controlado pelas Forças Armadas, que perdurou por 21 anos (1964-1985).  Há uma outra versão para a data do golpe, que na verdade teria acontecido em 1º de abril mas os Militares preferem dizer que foi em 31 de março  para não coincidir com o Dia da Mentira. Mas vamos combinar que de mentira isso não tem nada, é a mais absoluta e cruel verdade que o Brasil já viveu. A História,  além de nossos pais, avós, amigos mais velhos estão ai para nos lembrar sempre disso.

Eu era apenas uma criança mas me lembro muito bem. Meu pai era um jovem operário, pai de quatro filhos e tinha sempre que tomar cuidado ao sair de casa. A carteira profissional tinha sempre que estar no bolso da calça para provar que era trabalhador. Não foi uma nem duas vezes que ele chegou em casa contando que havia sido abordado na rua pelos milicos.

Em outubro deste ano eu farei 48 anos. E de novo, depois de 34 anos temos desde 1º de janeiro, um militar no comando, um militar de baixa patente, o Capitão reformado do Exército Brasileiro, Jair Messias Bolsonaro (claro, e seus três filhinhos: Flavinho, Dudu e Carlinhos).

Mas ele não precisou dar um golpe. Foi eleito, até que provem o contrário, democraticamente, com voto popular. “Com frases do tipo “O erro da ditadura foi torturar e não matar”, “Eu sou favorável à tortura. Tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também”, disse numa entrevista em 1999. Usando o dedo para simular arminha, o presidente que homenageou um dos maiores torturadores da Ditadura, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, conquistou o coração da maioria do povo Brasileiro e foi consagrado pelas urnas em 7 outubro do ano passado. E bem no dia do meu aniversário.

Agora, ele [o presidente] quer comemorar o golpe de 64, e já determinou os quartéis façam as “comemorações devidas com relação ao 31 de março de 1964”,  mesmo a contragosto de muitos militares, que preferem cautela em relação ao tema.

A celebração da instituição do regime militar instalado em 1964, classificada pelos militares como “Revolução de 1964”, não chega a ser uma novidade nos quartéis. A prática, no entanto, chegou a ser formalmente vetada pela então presidente Dilma Rousseff, em 2012, mas continuou a ocorrer, ainda que informalmente.

O porta-voz da presidência Otávio Rêgo Freitas, anunciou na segunda (25) que o presidente da República refuta o termo “golpe” para classificar a mudança de regime em 1964.

O presidente não considera o 31 de março de 1964 [como] golpe militar. Ele considera que a sociedade reunida, e percebendo o perigo que o país estava vivenciando naquele momento, juntou-se, civis e militares. Nós conseguimos recuperar e recolocar o nosso país num rumo que, salvo melhor juízo, se isso não tivesse ocorrido, hoje nós estaríamos tendo algum tipo de governo aqui que não seria bom para ninguém“, afirmou.

Ainda e acordo com o porta-voz, caberá aos comandantes das guarnições a definição do formato dessa celebração nas unidades militares. “Não há previsão de nenhuma celebração específica no Palácio do Planalto, mas a data deverá ser observada nas unidades militares do Distrito Federal”, afirmou o porta-voz.

Eu queria terminar esse texto com uma frase bonita, de efeito, de otimismo, desejando que dias melhores venham para o Brasil dos novos tempos, mas tudo que me vem à lembrança neste momento é a canção do Belchior que ficou consagrada na voz da Pimentinha Elis Regina: “eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens…” eu já nem sou tão jovem…

Sonia Marques

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